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Quarta-feira, Outubro 19, 2005


Vontades


Eu sempre quis muita coisa...

Queria ser cantora. E vivia trancada no quarto, em frente ao espelho, com a música no último volume, usando a escova de cabelos como microfone e imaginando uma platéia maior que a do Rock In Rio I, torturando minha família e vizinhos com a esganiçada voz de adolescente que tenho até hoje.

Mas também queria ser bailarina. E ficava horas treinando a dolorida e incansável ponta, com barra, sem barra, lutando também contra o excesso de peso que me deixava mais pra mascote de time de futebol americano do que prima bailarina do Municipal.

Sonhava em ser pianista. Um imenso piano em meu quarto e mais os sete anos de aulas me deram a prática, a facilidade para aprender, o bom ouvido para a música e eu me transportava para o palco de um teatro, acompanhada de uma enorme Orquestra Sinfônica, onde eu me apresentaria pelo mundo todo, aplaudida de pé como uma inigualável intérprete de algum mestre compositor, mas que foram logo trocados por um violão vagabundo, que fazia muito mais sucesso nas rodinhas do colégio.

Ser professora foi uma experiência única. Sempre quis ser um modelo para os outros, alguém em que as pessoas pudessem confiar, se inspirar e cujo conhecimento acrescentaria algo mais a um ser humano comum, o que foi frustrado por um bando de crianças mal-educadas, mal-amadas e sem um pingo de vontade de aprender, tudo isso combinado com a minha paciência e pavios curtíssimos.

Piloto de avião. Aqueles monstros voadores, sob o comando de uma mulher pequenina, cruzando os ares e levando centenas, milhares de pessoas diariamente para todos os cantos do mundo, conhecendo lugares exóticos e distantes, e vomitando a cada vez que a pressão dentro da cabine subia e o cheiro de comida impregnava a aeronave.

O desejo de ser desenhista, de ver sua obra reconhecida e reproduzida pelo mundo afora, suas ilustrações admiradas e compradas por colecionadores renomados, só não se solidificou pela minha incapacidade de aprimorar a única coisa que eu sei desenhar até hoje, que são bonecos-palito sorridentes e carecas.

O fato é que eu queria ser alguma coisa. Queria ter uma profissão admirada e respeitada. Jamais iria me enfiar na cozinha como minha avó, sem que o trabalho doméstico tivesse sido reconhecido uma só vez na vida. Queria ser alguém em que as pessoas pudessem se espelhar e que pudessem admirar. Uma profissão digna. Imagina, ser dona de casa, eu? Nunca.

Hoje, senhoras e senhores, a vida me deu uma volta.

Embora ame minha profissão e seja realmente boa no que faço, eu e meus colegas somos taxados diariamente de bandidos, enganadores, espertos, vistos sempre como aqueles que querem levar a melhor a qualquer custo. Anualmente, as faculdades despejam no mercado de trabalho mais e mais "colegas", muitas vezes despreparados e desqualificados e que denigrem a imagem da minha amada profissão. Além disso, tenho entre as minhas poucas paixões, aquela que vou levar comigo para todo o sempre, mesmo que pouco valorizada pelos que estão à minha volta: a cozinha.

Sou advogada e dona de casa.







Terça-feira, Outubro 11, 2005


Mal começou...


Sete horas da manhã e os bichos já estão impossíveis. Kelly, a gata mãe, não pára de miar por um segundo pedindo comida. Os cachorros estão correndo pelo quintal, bem debaixo da janela do quarto. Como de costume, marido levanta mais cedo, alimenta a bicharada, despede-se e sai pra dar aula. Tento me afundar debaixo das cobertas, mas o calor intenso e a algazarra dos bichos não me deixam dormir. Levanto e fico zanzando sem rumo pela casa. Meu café da manhã é composto por meia dúzia de balas de chocolate. Olho pra cama desfeita e decido que é assim que ela vai ficar até à noite. Abro a porta da cozinha e dou dois berros para os bichos se calarem. Em vão. Ligo o chuveiro e deixo a água esquentar um pouco. Me enfio no box pra um banho demorado, na esperança de que a água que desce pelo meu corpo leve embora a sensação de mal estar e desconforto que toma conta de mim. Também em vão. Passo mais de 40 minutos pra me vestir. Não por esmero, mas por indecisão e desânimo. Os bichos finalmente se calam e deitam espalhados pela varanda. Ao sair de casa verifico a caixa do correio e nem mesmo um belo cartão postal, vindo diretamente da Austrália, consegue me animar. Dirijo lentamente, como se adiando a minha chegada ao escritório. O volume do carro nas alturas toca o último CD que baixei da internet, um rock pesado qualquer. Chego ao escritório e mal consigo responder ao sempre simpático "boa tarde" do porteiro. Peço pra secretária não me passar nenhuma ligação, entro na minha sala e ligo o ar condicionado ao máximo. Olho para o relógio. O dia mal começou.

E A PORRA DA TPM JÁ CHEGOU...