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Quinta-feira, Novembro 30, 2006


Auto-?


Ela se olhou no espelho. A imagem que via já não lhe agradava há algum tempo. Não que fosse feia. Não era. Tinha os cabelos lisos, até os ombros, cheios. O tom avermelhado das mechas lhe caía bem. Gostava de sua boca. Ela tinha um desenho definido e se abria em um sorriso simpático, quando assim ela permitia. Apesar de estar um pouco acima do peso, a cintura ainda era fina e os quadris arredondados, dando um aspecto voluptuoso ao corpo. Vestia-se bem. Usava sapatos caros. Mesmo assim, não se gostava mais. Passou o perfume importado e pegou a bolsa para sair. Passando pelo corredor de seu apartamento lançou um olhar de reprovação para as muitas caixas ainda empilhadas dentro do que deveria ser o escritório. Desde sua mudança, há seis meses atrás, ainda não conseguira arrumar tudo. Ou então não queria arrumar. O apartamento de três quartos, cozinha, sala e varanda era grande o suficiente para abrigá-la. Não tinha mais necessidade de tanto espaço como naquela outra casa. Mesmo porque agora estava sozinha. Ao lembrar disso, sentiu um arrepio. De repente o apartamento ficou gigante só pra ela. Ela estava sozinha. Saiu de casa o mais rápido possível, pra não pensar mais nisso. Em vão. Tudo o que mais lhe angustiava martelava em sua cabeça o dia todo. E a noite toda. E todos os dias. E todas as noites. Engoliu o choro e foi trabalhar. Trabalhava quase 14 horas por dia, incessantemente. Não havia cansaço. Mesmo porque não podia parar. Parar significaria tempo livre pra voltar a pensar. A pensar em como estava sozinha. Sozinha em casa, no escritório, no meio de uma multidão, na mesa de bar com os amigos, na casa da mãe... Sozinha. Quem a via feliz, sorrindo e contando histórias em uma roda qualquer jamais imaginaria o seu medo de voltar pra casa. Voltar e encontrá-la esperando. A solidão. Que sentava ao seu lado pra ver um filme. Dormia em sua cama debaixo do edredon gelado. A solidão, sua companheira desde que tudo aconteceu. E enquanto chorava escondida no banheiro do escritório, desejou, mais uma vez, que ele estivesse se sentindo tão sozinho quanto ela. Visualizou o sofrimento dele. E entre as lágrimas que teimavam em descer, ela sorriu...







Quinta-feira, Novembro 23, 2006


Maresia


Sabe aquela sensação de que o pior já passou, você ainda não melhorou, mas está avisando terra firme, mesmo que beeeem longe?

Como numa viagem de um barco que foi pego por uma tormenta no meio do caminho?

É por aí...







Quarta-feira, Novembro 15, 2006


Calendário


Ok. Cansei dessa história de que um dia vai passar. Um dia, um dia... e essa porra de dia que nunca chega!

Alguém me dá uma data aí, vai. Um dia da semana, do mês, um ano. Que dia vai ser? Porque daí eu durmo e só acordo nesse dia. Ou no dia seguinte, só pra garantir.

Porque senão vou ter que começar a pedir lágrimas emprestadas por aí. Alguém tem sobrando?







Segunda-feira, Novembro 06, 2006


Fuga


Voltei ontem de Porto Alegre. De novo. Uma fuga, talvez? Pode ser. Por quanto tempo mais eu vou continuar fugindo? Também não sei. Se essas fugas me fazem bem? Sim, fazem. E muito. Porque eu fujo pra um lugar onde existe o aconchego do abraço, o carinho do olhar, a doçura das palavras. Um lugar onde sou amada, única e importante. Onde os problemas não me perseguem e o tempo parece parar por alguns dias. Um lugar onde o meu sorriso é o que importa, mas se vier o choro ele também será acolhido. Onde as minhas vontades são ouvidas, onde a conversa é primordial ou mesmo o silêncio é entendido. Se eu vou continuar fugindo? Acho que se a fuga continuar tão deliciosamente uterina, sim.