Uma das coisas que mais me entristecia ao pensar no final do meu casamento era o fato de que, dificilmente eu iria encontrar alguém com quem eu me sentisse tão bem ao lado como o Giovane. Repeti inúmeras vezes nas sessões de terapia como eu tinha saudade da pessoa que eu era ao lado dele, da pessoa que ele me permitia ser. Queria ser aquela pessoa novamente. E não conseguia sem ele. Dizia que ele me via de uma forma que ninguém jamais tinha visto. E eu queria ser vista assim novamente. Que ninguém realmente sabia quem eu era. Nem eu mesma. Só ele. Difícil então superar as coisas desse jeito.
Adorava ser dona de casa. Mas ele dizia que cozinhava melhor do que eu. E que eu era bagunceira. Adorava ser mãe dos nossos bichos. Mas ele dizia que eu era preguiçosa pra levantar cedo e alimentar a bicharada. Adorava ser anfitriã em nossa casa. Mas ele dizia que eu não sabia receber os amigos dele. Adorava estar com a turma dele. Mas nunca fui aceita completamente naquele círculo tão restrito e tão diferente. Adorava transar com ele. Mas ele raramente me procurava. Adorava conversar com ele durante as tarde de sábado, deitados na rede de casa. Mas nossos pontos de vista eram completamente opostos. Adorava dança, teatro, frequentar shows e ir a apresentações com ele. Me envolvia nas programações do Festival que ele organizava e ajudava da melhor maneira possível. Mas segundo ele, eu não entendia nada de arte. Gostava sempre de estar arrumada, bem-vestida e cheirosa pra ele. Mas meu corpo sempre deixava a desejar. Que passava horas fazendo cafuné com ele em meu colo. Mas sempre ouvia que eu não sabia ser carinhosa. Aguentava firmemente os assédios nos camarins depois dos espetáculos, as ligações à noite pra minha casa e as indiretas nos eventos que comparecíamos. E mesmo assim, ele me considerava extremamente ciumenta. Era assim que ele me via. E era assim que eu achava que era e gostava de ser, porque ele me amava mesmo assim...
Mas como eu já disse aqui antes, quando estou errada, admito a falha. E tento corrigi-la. Então aqui vai...
Balela. Tudo mentira, ilusão. Fruto dos meus sentimentos de perda, tristeza, saudade. Resultado da impossibilidade de desapego. Não preciso dele pra saber quem eu sou. Ou pra gostar de quem eu sou. Não mais. Eu hoje já sei quem sou. E sou uma pessoa completamente diferente daquela que eu tanto gostava e sentia falta de ser. Eu era aquilo que ele queria ver. E eu fazia questão de continuar sendo aos olhos dele, aquilo que o agradasse. Mas que hoje eu vejo que não me agradava, de forma alguma.
Eu sou aquela moça... Aquela que adora estar rodeada de homens, porque eles são seus melhores amigos e seus mais fiéis confidentes. Aquela que só tem duas amigas, mas sabe que a eternidade é pouco tempo pra curtir essa amizade. Aquela que consegue passar o dia em reuniões, em cima de salto 10 e a noite descalça em volta de uma mesa de sinuca. Que é aburdamente louca pelo camarão mais caro da cidade e nem pisca duas vezes antes de aceitar comer um cachorro-quente na esquina. Transita por ambientes descolados com a mesma desenvoltura com que participa de um mega programa de índio. Adora homens inteligentes e não tem a mínima paciência com homens mais velhos. Adora homens mais novos e não tem a mínima paciência com moleques. Que gosta de sexo. Muito. Que é fiel. Totalmente. Aquela que fala exatamente o que está pensando e demonstra o que está sentindo com a mesma normalidade que diz um "bom dia". Que troca uma balada por um DVD com pipoca em casa. Mas não troca seus amigos por nada nesse mundo. Aquela que, quando quer alguma coisa, invariavelmente consegue. Que não segue tendências ou modismos. Que sabe contar piadas e rir alto. Pagar mico em público sem problema algum. Que fuma sim e foda-se. Que consegue beber uma garrafa de tequila. Sozinha. Que não é uma pessoa carinhosa e tem consciência disso. E até hoje sofre com isso. Que se exalta nas conversas e o tom da voz parece estar brigando. Aquela que chora. Chora muito quando acha que precisa. Mas não por qualquer coisa. Que a própria mãe diz ser uma "manteiga derretida seletiva". Adora homens sensíveis. Não suporta artistas. Mas tem um ímã pra raça. Prefere o anonimato. Aquela que quer distância de qualquer tipo de notoriedade que não seja a sua profissional. Aquela que se rende a um bom beijo. E que acha que a falta de beijo no relacionamento é um indício sério. Aquela que prioriza a conversa. Sempre. A todo momento. Aquela com borboletas no estômago.
Prefiro, sim, ser essa. Meu hoje é fruto de tudo que eu sempre fui e deixei de ser quando estava com ele. E eu adoro. E me adoro assim. A saudade acabou...
Segunda-feira, Janeiro 29, 2007
Domingo, Janeiro 28, 2007
Encontraram-se no supermercado. Depois de oito meses de separação, um dia tinham que se esbarrar por aí.
"- Oi Alice.
- Oi Marcelo.
- Tudo bem?
- Tudo bem e vc?
- Bem também. Você cortou o cabelo. Ficou bonito.
- Obrigada. Você emagreceu, tá malhando?
- É, pois é. Entrei na academia depois que nos separamos...
- Ah sim... depois...
- É. Você me achava gordinho.
- Eu? Nunca, tá louco?
- Achava sim.
- Bebeu Marcelo? Eu nunca te achei gordinho.
- Então não foi por isso que você me largou...rs
- Não, não foi por isso. E eu não te larguei, lembre-se bem: você me largou.
- Eu? Você quem terminou tudo!
- Só porque você queria terminar!
- Eu nunca quis terminar!
- Nem eu!"
Silêncio...
"- Você achou que eu queria terminar?
- Sim. Não queria?
- Não. Por que você achou isso?
- Você esqueceu nosso aniversário de namoro...
- Esqueci?
- Sim, dia 05 de abril.
- 05 de abril... porra Alice, foi no dia que eu perdi o emprego! Eu não tava pensando em mais nada, não queria nem te contar que tinha sido demitido!
- E por isso que você nem me ligou?
- Foi!
- Eu achei que fosse um sinal. Que você queria terminar. Daí terminei por causa disso.
- Por que não falou comigo?
- Não sei. E você, por que não falou comigo também, não perguntou por que eu tava terminando?
- Não sei, você tava tão decidida.
- Você também.
- Eu achei que você não gostasse mais de mim.
- Eu sempre fui louca por você! Eu que achei que você não me quisesse mais!
- Fala sério! Você é a mulher ideal! Eu que era louco por você!"
Silêncio.
"- A gente devia ter conversado.
- Sim, devia.
- A gente podia conversar agora.
- Agora não posso, tenho aula.
- Não digo agora nesse minuto...
- ...
- ...
- Eu estou namorando...
- É... eu também estou saindo com alguém...
- Pois é, já passaram oito meses.
- Pois é.
- A gente devia ter conversado.
- Sim, devia.
- Então tchau... a gente se esbarra.
- É, quem sabe daqui a oito meses...rs.
- Quem sabe."
Essa é uma história verídica. E na maioria das vezes, as pessoas só precisavam ter conversado...
Sexta-feira, Janeiro 26, 2007
Incrições abertas:
REQUISITOS PARA TORNAR-SE O SR. KIKO:
- Tem que clicar. Ligar aquela chavezinha que fica localizada no comecinho da espinha e que libera um batalhão de borboletas no seu estômago;
- Ser inteligente. Poder conversar sobre todo e qualquer assunto. Desde a situação na Somália até o último episódio dos Simpsons;
- Me fazer rir. Bom humor é fundamental. Não é ser palhaço, é ser divertido. Mas vale também contar piadas infames vez por outra;
- Gostar de sexo. Grau de importância = MÁXIMO. Esse item dispensa comentários. E tem que me achar gostosa também. Claro...;
- Botecar. Tem que gostar de um bom boteco. De uma boa bagunça. De beber. E de preferência do Líbanus. E entender que dali eu não saio, dali ninguém me tira;
- Não ter ciúmes. Mas tem que, pelo menos, fingir um pouquinho de vez em quando. Faz bem pro egão.
- Tem que entender meus horários. Meu trabalho. Minha vida. Que já existia antes do relacionamento e vai continuar a existir. E ficar de boa com o fato de que eu, provavelmente, ganho mais do que ele;
- Me tirar da rotina, fazer programas diferentes. Me surpreender de vez em quando. Telefonemas nas horas inesperadas. Mensagens carinhosas. Bilhetes fofos. E sim, toda mulher gosta de flores. Bombons eu dispenso;
- Fundamental gostar de bicho. Não precisa morrer de amores, mas tem que tratar bem gatos, cachorros, passarinhos e todos que se inserirem nesse rol. Insetos já estão numa categoria completamente diferente;
- Gostar dos meus amigos. Amigos - masculino - homens. Porque gostar das amigas é fácil. Encarar meus amigos gostosos, bem-resolvidos e ciumentos é que são elas...;
- Gostar de dançar. E de ficar em casa na companhia de pipoca e DVD da mesma forma. E de viajar. E de voltar pra casa também;
- Dormir de conchinha. Não se assustar com minhas crises de sonabulismo ou com meu "ronronar" (leia-se ronco) durante a noite;
- Entender que, ao contrário da maioria das mulheres, quando eu digo "não", significa "não" e "sim" significa "sim". "Pode ser" e "talvez" estão abertos a discussões;
- Beijar bem. E me beijar muito. Nada de demonstrações públicas que chegam a constranger a mesa ao lado. Mas um bom beijo é indispensável;
- Ser sincero. Honesto. Direto. Falar o que pensa, por pior que seja. Falar a verdade por mais que ela doa. Não saber é horrível. Saber depois é pior ainda;
- Entender que SÓ EU SEI a hora de conhecer a minha família. E demora, acredite;
- Aceitar que, pelo menos duas vezes por semana, existirão programas só meus. Sozinha ou com amigos, não importa. Se eu vou sair com uma turma ou ficar em casa pintando o cabelo, também não importa. Momentos só meus. Ter atividades em separado e depois curtir a saudadezinha e ter novidades pra contar.
Acho que, se eu continuar, a lista vai acabar saindo enorme. Mais ainda. Mas não quero ser muito exigente.
Mentira. Quero ser exigente sim. Acho que mereço. E a lista tá aí. Ponto.
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
Durante a vida certas coisas são inevitáveis. Dor é inevitável. Sofrimento também. Todos passamos por isso. Inevitável também chegar a uma certa altura da vida e encontrar-se cética. Não mais acreditar. E nem mesmo querer acreditar novamente. Pelo menos por um bom tempo. Vestimos uma armadura. Nos posicionamos atrás daquele muro quase impenetrável. Vestimos a máscara do cinismo e da frieza. E achamos que estamos bem assim.
O que ganhamos com isso? Menos dor e menos sofrimento? Talvez. Menos decepções? Pode ser. Mas o que perdemos com isso? Qual preço pagamos pelo nosso ostracismo sentimental?
O preço? Perdemos a capacidade de nos deixar surpreender. De enxergarmos alguma coisa naquela pessoa que está exatamente do seu lado e nunca percebemos. De nos sentir incrivelmente confortáveis compartilhando um momento de silêncio. Ou igualmente animados engatando uma conversa intelectual ou um papo-sem-pé-nem-cabeça.
Perdemos a capacidade de descobrir as pessoas. E de nos descobrir ao lado delas. De querer olhar alguém da mesma forma como queremos ser olhados. Perdemos a capacidade de deixar alguém "ser" na nossa vida. E perdemos a capacidade de "ser" na vida de alguém.
No balanço final, acabo achando que mais perdemos do que ganhamos. E se, de uma forma de outra, arriscamos perder alguma coisa, prefiro fazer outra escolha.
Escolho me deixar surpreender. Escolho me deixar... e ir.
Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
Fazer uma retrospectiva de 2006. Inevitável, não? Por que fazemos esses balanços no final do ano? Qual o significado dessa passagem de ano? Pois bem, me revoltei. Já aconteceu tanta coisa na minha vida que eu não queria que acontecesse... Agora chega. Nada de retrô, nada de balanços. Vou deixar isso pra março. Não, abril. Já sei, maio, no dia 09. Veja só, dia 09 de maio, uma quarta-feira, às 15 horas e 24 minutos. Esse vai ser um dia significativo na minha vida. Provavelmente estarei atendendo um cliente ou no meio de uma audiência. E de repente o despertador do relógio vai tocar e eu vou fazer a retrospectiva do ano que passou. Imagine, lá no meio da audiência, pensando na vida, no ano... capaz do juiz achar que estou passando mal. Mas é isso aí. Dia 09 de maio de 2007. Quarta-feira. 15 horas e 24 minutos. Dia da minha retrospectiva 2006. Até lá quero esquecer esse aninho infernal.
Sábado, Janeiro 06, 2007
Já deu, né?
Chega.
Vamos engolindo o choro, secando as lágrimas, guardando as lamúrias, que o show acabou.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos levantar o rosto, abrir os olhos, esboçar um sorriso e começar a dar uns passos..
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos olhar pros lados, procurar coisas novas, voltar a viver.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos viver em paz, colocar a auto-estima no lugar e seguir em frente.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos fazer planos, correr atrás de sonhos e vibrar com as conquistas.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos nos livrar do excesso, do velho e do inútil.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos beijar, transar e amar.
Circulando, circulando, nada mais pra se ver aqui...
Vamos pra outro lugar.
Porque já não mais pertencemos a esse aqui.
Segunda-feira, Janeiro 01, 2007
Para que 2007 não seja uma repetição do ano que passou...
Que eu aprenda a sentir coisas boas novamente. Que eu aprenda a sentir.
Que eu aprenda a sofrer pelas coisas certas. Que eu aprenda a sofrer.
Que eu aprenda a estar sozinha e estar bem. Que eu aprenda a estar sozinha.
Que eu aprenda a amar mais uma vez. Que eu aprenda a amar.
Que eu aprenda a se feliz nas pequenas coisas. Que eu aprenda a ser feliz.
Que eu aprenda.
