"- Mamãe, deixa isso aí e vem comer com a gente!"
Paula estava sentada jantando com os irmãos. A mãe tinha levantado para pegar uma jarra de suco e quando acendeu a luz da cozinha deu um pequeno grito.
"- Aijesuis!
- O que foi mãe?
- Esse interruptor de luz da cozinha tá um nojo! Gordura pura! Como é que a Maria não limpa isso, meu Deus? Deixa eu pegar uma escovinha...
- Mãe, depois!!! Vem jantar!
- Tô indo, tô indo..."
E lá se foi a mãe com uma escovinha na mão, desengordurante na outra, a comida esfriando e o interruptor de luz da cozinha ficando limpo.
Paula terminou de jantar e levou a louça para a cozinha. Passou pela mãe e proferiu um "tu és maluca, viu..." A mãe nem ouviu.
"- Mamãe, pára com essas neuroses. Você tá é ficando velha, viu? Deus me livre acabar feito você!"
Foi empilhando a louça dentro da pia. Primeiro os pratos, depois as panelas e dentro delas os talheres. Os copos em volta da pia cheios de água. No dia seguinte a empregada lavaria tudo.
"- Pronto mãe, vamos pra sala ver tv, larga isso aí.
- Já colocou a louça na pia?
- Já.
- Os pratos por baixo?
- Sim.
- Os copos, encheu de água?
- Enchi mamãe. Coloquei do jeito que você sempre pede. Vamos."
Enquanto iam pra sala, sua mãe foi reclamando do irmão mais novo. "Parece sócio da light". Deixava as luzes acesas pela casa inteira, rádio ligado, tv ligada, computador ligado, tudo ao mesmo tempo. Paula ia andando atrás da mãe e desligando todas as luzes até chegarem na sala.
"- Mamãe pára de reclamar, que coisa!
- Você fala assim, mas um dia você vai ver como eu tenho razão no que eu falo.
- Nesse dia eu vou estar louca. Deus me livre ficar assim."
Tirou os sapatos. Sua mãe logo trouxe um chinelo emprestado: "Não anda descalça, vai ficar doente". Assistiram um pouco da novela e logo o cansaço chegou.
Despediu-se da mãe e foi para casa. No caminho pensava aliviada em como era diferente da mãe. Embora a adorasse, sempre recriminou o seu jeito controlador e perfeccionista. "Longe de mim envelhecer e ficar assim".
Chegou em casa, jogou os sapatos longe, na sala. Perambulou descalça pela casa, acendeu as luzes da sala, da varanda, do corredor e da cozinha. Olhou a louça suja e empilhada de qualquer jeito na pia da cozinha. "Ah, vai ficar desse jeito aí até a Lúcia vir fazer faxina". Ligou o rádio do banheiro e a tv do quarto.
Sentou na cama pensando no chilique que a mãe teria se estivesse ali agora. Riu sozinha. Trocou a roupa e foi deitar. Antes de dormir, foi buscar um copo de água na cozinha. Foi quando viu. Um arrepio tomou conta do seu corpo. Ficou paralisada por um instante.
O interruptor da cozinha estava um nojo. Gordura pura.
Às duas da manhã, depois de ter empilhado a louça na pia com os pratos embaixo, as panelas em cima, os talheres dentro e os copos cheios de água, apagado todas as luzes e desligado a tv e o rádio, Paula, calçada em um par de pantufas de pelúcia, esfregava o último interruptor de luz da casa.
Foi deitar tranquila. Antes de dormir, lembrou que prometera à mãe comprar carne pra ela num açougue específico. O açougue ficava do outro lado da cidade. Mas sua mãe só comprava carne lá. "Mamãe e suas manias", pensou. Adormeceu com um sorriso nos lábios. Sim, iria comprar uma peça de picanha pra ela também. Porque picanha só prestava comprar naquele açougue mesmo...
Quinta-feira, Setembro 13, 2007
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