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Domingo, Novembro 18, 2007


Liberdade


Letícia desligou o telefone incrédula. Há mais de um ano esperava por um telefonema daquele. Desde que Gilberto a deixara não tinham conversado sobre nada além dos assuntos de praxe que envolvem uma separação: bens, dinheiro, rotinas, empregados. Depois de tudo resolvido, cada um seguiu sua vida e nunca mais se falaram. Mas nem tudo estava resolvido. Dentro dela um turbilhão de "porquês" ainda atormentava seus dias. Queria entender. Queria mesmo? Ao mesmo tempo tinha medo dos motivos que levaram Gilberto a traí-la, a trocá-la por outra, mais nova, mais bonita. Queria entender o que ela tinha feito para que ele a deixasse de forma tão brusca e estúpida. Queria entender mas ao mesmo tempo tinha medo do que poderia ouvir.

Naquela manhã despertou com o toque do celular e, na tela, aquele número tão familiar. Gilberto parecia descontrolado, desesperado até. Precisava falar com ela. Não por telefone. Precisava dela, agora. A urgência na voz dele fez com que ela marcasse o encontro em uma hora.

Pensou em quantas vezes imaginou aquele encontro. Que roupa vestiria, o perfume que estaria usando. Linda, maquiada, renovada. Uma entrada triunfal no local combinado, atraindo olhares e provocando o total arrependimento de Gilberto por tê-la deixado.

Porém, marcou de se encontrarem no estacionamento ao lado de seu escritório e vestiu-se, como em todas as manhãs, conforme sua profissão pedia, nada espetacular ou triunfal. Olhou-se no espelho. Não havia mudado muito nesse último ano. As roupas de trabalho, o cabelo curtinho. Tinha até engordado um pouco. Era a mesma de antes. Será?

No caminho, especulou como estaria Gilberto. Fora a urgência na voz, que poucas vezes ela ouviu, tinha visto algumas fotos dele no Orkut da nova namorada. Ele continuava exatamente o mesmo. Lindo como sempre. Aquele sorriso hipnotizante, os dentes branquinhos e as pequeninas rugas em volta dos olhos que lhe davam um charme único. Por um momento se odiou por ter engordado, por não estar deslumbrante, por não parecer anos-luz melhor do que ele. "Paciência", pensou, "What you see is what you get". Tinha sofrido como nunca depois da separação. O que ela era hoje também era resultado de tudo isso.

Estacionou no local marcado e foi procurando o carro de Gilberto. Avistou-o de longe, de costas para ela. Quando chegou perto, o susto. Com as roupas e a cara amarrotada, um jeito de quem não dormia há dias. Os olhos vermelhos como se tivesse chorado por uma noite inteira. Mais magro do que jamais vira. A personificação da tristeza. Passava longe do Gilberto que conhecera. Do homem belo, charmoso, de beleza simples e sentimentos sempre muito bem guardados. Ele sim, era outra pessoa.

Assustada, viu Gilberto começar a chorar. Mal conseguiu ouvi-lo, de tão hipnotizada que estava por tamanho sofrimento. Ouviu fragmentos sobre "minha namorada", "traição", "arrependimento", "depois da separação", "perdido". Não deu muita atenção. Nem muita importância aos detalhes. Ele estava ali, de alguma forma, dando a ela as explicações que ela esperou por mais de um ano. Pedindo as desculpas que ele nunca pediu. Fazendo o balanço e o fechamento daquele casamento. Colocando de vez o ponto final que ela tanto precisava. Contando pra ela como ele agiu da mesma forma com a namorada. Dizendo, entrelinhas, que a culpa não era dela, nunca foi, mas sim dele. Que ele era assim. Mostrando que era assim e que foi reincidente.

Despertou subitamente com a pergunta "o que eu faço?". Ele ainda estava ali pedindo sua ajuda. Sua orientação de como agir no seu novo relacionamento. Sentiu-se superior. Pensou em como Deus é sacana. E tem um humor negro do cacete. Aproveitou por um segundo aquele momento, saboreou-o como jamais imaginou e depois deixou de lado a arrogância. Disse a ele o que pensava, de forma tranquila, até carinhosa. Aconselhou-o como queria que ele tivesse agido com ela. Disse para ele ser íntegro. Corajoso. Sincero. E depois desejou-lhe felicidade.

Virou-se e deixou-o ali, entre lágrimas e com uma decisão nas mãos, esperando, sinceramente, que ele escolhesse o caminho certo. Não se perguntava o que ele iria fazer. Se iria seguir seus conselhos ou se, mais uma vez, iria magoar alguém. Não lhe importava. Seu papel na vida de Gilberto estava encerrado. Assim como o dele na sua vida. Sentiu-se leve, pela primeira vez desde a separação. Satisfeita consigo mesma, por ter sido exatamente da forma como sempre se imaginou em seu casamento: correta, honesta, dedicada.

Agora sabia como continuar. Sabia que estava no caminho certo. Ao chegar no escritório foi abordada pela secretária e pelo estagiário e, em instantes, esqueceu o que tinha acontecido momentos antes no estacionamento.

Estava livre.







Quinta-feira, Novembro 15, 2007


Apaixonar-se.


Tem um texto da Martha Medeiros que diz:

"Cada vez que nos apaixonamos, estamos tendo uma nova chance de acertar. Estamos tendo a oportunidade de zerar nosso hodômetro. De sermos estreantes. Uma pessoa acaba de entrar na sua vida, você é 0Km para ela. Tanto as informações que você passar quanto as atitudes que tomar serão novidade suprema - é a chance de você ser quem não conseguiu até agora."

Ela tem razão. Um novo amor é uma nova platéia, para um novo show a ser estrelado por você.

Daí você capricha no figurino, no enredo, na performance. Fica nervoso na estréia, corrige as pequenas falhas no decorrer das apresentações e por aí vai...

Depois de um bom tempo em cartaz, a coisa começa a mudar de figura. Você já não se preocupa tanto se a platéia vai notar que o figurino ainda é o mesmo de sempre, se as piadas ficaram velhas, se o script já está memorizado, se o texto está batido e não traz nenhuma novidade. Sabe que a pessoa tem cadeira cativa no seu teatro e não se preocupa mais em lotar a casa ou ganhar aplausos vibrantes.

Até o dia em que, lá no meio das cadeiras empoeiradas, por trás das velhas cortinas de veludo, você avista alguém novo. Alguém que ainda não assistiu aquele espetáculo e que, curiosamente, sentou-se lá na última fileira para ver o que estava passando.

Daí, o recomeço. Você troca o figurino. Tira a poeira do cenário. Moderniza o texto e insere piadas novas. Aprimora sua performance no palco para, mais uma vez, sentir o gostinho de uma nova estréia.

Apaixona-se novamente.