Eram amigos. Conversavam sempre, muito e sobre tudo. Um dia, sentados em um de seus restaurantes preferidos, o silêncio pairou no meio do papo animado:
Ela: "- E se for só isso?"
Ele: "- Só isso o quê?"
Ela: "- Veja só... Eu já passei dos 30, já fui casada, separei, casei de novo, separei. Mas se sou solteira é por opção. Não tive e nem tenho filhos, também por opção. Tenho uma profissão que amo e que me sustenta, até além do que preciso. Moro num lugar legal, tenho um carro legal. Me dou bem com a minha família. Tenho amigos fiéis, em número não maior do que os dedos de uma mão, o que já está de bom tamanho. Já viajei meio mundo e faço sempre o que eu quero. Me relaciono com muitas pessoas, participo dos mais diversos grupos. Posso me dar ao luxo de frequentar bons restaurantes e tomar bons vinhos quando quero. Ou estar sozinha com meus livros e meus filmes da mesma forma. Estou de bem com a vida. Feliz, até. E daí?"
Ele: "- O que você quer mais?"
Ela: "- Quero saber se é isso aí. O que importa, sabe... Se tem mais alguma coisa, se vai acontecer mais alguma coisa..."
Ele: "- Você quer que aconteça mais alguma coisa?"
Ela: "- Não... Sei lá... Tipo, será que até o final de nossas vidas a gente vai sair toda semana pra almoçar juntos?"
Ele: "- Isso seria tão ruim?"
Ela: "- Claro que não, besta... Mas é disso que eu tô falando. Eu gosto da minha vida. Por mim, tudo bem se ficar nisso, desse jeitinho mesmo. Mas que só queria ter certeza...
Ele: "- Isso você não vai ter nunca... Mas você pode prometer pagar todos os almoços até o final da vida e tem companhia garantida. Daí pelo menos isso não muda..."
Ela: "- Não dá pra falar sério com você!"
Ele: "- Claro que dá, mas você tava falando sério?"
Ela: "- ..."
Ele: "- Afinal, você está ou não está satisfeita com a sua vida?"
Ela: "- Estou... Eu acho... Afinal, com tudo isso que eu tenho, sou obrigada a me dar por satisfeita, não?'
Ele: "- É mesmo?"
Ela: "- Drouga..."
Quinta-feira, Maio 29, 2008
Contra o senso. Contra-senso.
