Prendi a respiração e ele respondeu:
"Eu conheci uma menina no início de outubro que desde o primeiro momento me encantou, não porque tivesse a aparência de uma dessas top models badaladas aí ou a herança de Paris Hilton ou dos Onassis, nem pq fosse uma genialidade contemporânea seguindo os passos físicos de Einstein ou filosóficos de Nietsche. Mas porque mostrou ter bom humor, ser cativante, carinhosa, mas também forte, determinada, sem não me toque, sem frescurites [comeu até avestruz], aventureira e esportiva [mergulhadora, amante de viagens], com um nível intelectual primoroso, sem perder o assunto depois dos primeiros 30 minutos de conversa, sem usar internetês incompreensível, mas mostrando também ter uma bagagem cultural fantástica. Uma pessoa com quem nesses dias compartilho idéias, sentimentos, meu cotidiano, desde o mais simples detalhe de estar ouvindo receitas de empadinhas doces até um curso de análise de geoprocessamentotérmico na universidade. Uma pessoa com personalidade que não fala as coisas pra me agradar, porque tem opinião própria e isso é maravilhoso pq quando encontramos pontos comuns em nossos gostos não duvido jamais de que seja uma verdade."
E então eu soltei o ar...
Quarta-feira, Outubro 29, 2008
Sexta-feira, Outubro 17, 2008
"- Eu não consigo sonhar, doutor."
Juliana estava sentada no consultório de mais um renomado psicólogo. Já passara por clínicos, neurologistas, psiquiatras, já tentara todos os exames, testes, remédios, até regressão e hipnose. Nada. Não conseguia sonhar.
Desde criança, desde que se conhecia por gente, não fazia idéia do significado da palavra "sonho". O que era sonhar? Fazer coisas que na verdade não se fazia, dizer coisas que não se dizia, sentir coisas que não se sentia. Pessoas que até previam coisas! Que tinham encontros com entes queridos que se foram. Que viam em seus sonhos a pessoa amada. Sonhos!
Agora olhava fixamente para mais um psicólogo, já esperando as palavras iniciais tão conhecidas. Ele diria que ela sonhava, claro, que todos sonhavam. Mas que um bloqueio a estaria impedindo de lembrar desses sonhos. Mas era impossível ela não sonhar. E depois de mostrados os exames, os laudos, o histórico todo de sua falta de sonhar, mais uma tentativa de terapia, de procurar alguma coisa que os outros não encontraram.
"-Nem eu."
Um pulo. A resposta a surpreendeu mais que tudo. Achou que o psicólogo estava brincando com ela. Já ia se levantando indignada pra ir embora, quando começou a ouvi-lo contar sua história. Desde criança, jamais havia sonhado também. Passou boa parte de sua adolescência indo a médicos, curandeiros, terapeutas. Resolveu estudar psicologia para ver se conseguia entender o que estava acontecendo. Nunca havia encontrado a resposta.
Conversaram durante horas, mais do que uma sessão normal de terapia. Achavam ser impossível encontrar outra pessoa que fosse assim, como eles. Riram das dificuldades que já passaram por conta do fato de não sonhar. Como dizer pra uma namorada apaixonada "não querida, eu não sonhei com você, aliás nem com você e nem com ninguém"? Como concluir uma simples redação de colégio, cujo título era "Qual seu maior sonho?".
Juliana foi embora mais leve. Marcou as próximas sessões para todos os dias da semana. Tinha tanto o que falar, tanto o que perguntar. Sentia-se leve, aliviada. Não se sentia mais excluída, diferente. Tinha encontrado um igual.
Naquela noite, Juliana dormiu tarde, pensando em tudo o que tinha lhe acontecido durante o dia. E quando dormiu, pela primeira vez, sonhou.
Sonhou com o rapaz que não sonhava e as sessões de terapia ainda por vir.
Terça-feira, Outubro 14, 2008
Se eles fossem, seriam assim...
Ele é norte. Ela é sul. Ele é o festivo e finalístico dezembro e ela, as águas de março. Ele é um sábado e ela uma quinta-feira. Os dois são o cabalístico sete. Ele é o mítico Marte. Ela, o pequeno Plutão. Eles caminham na direção um do outro. Ele é a preguiça do sofá. Ela, a gula na cama. O quente conhaque e o embriagante vinho. Ele é o raro topázio. Ela é a pedra no caminho. Ele é o cobre, o fio condutor. Ela, o adamantium, indestrutível. O simbólico Pau-Brasil e o infantil cajueiro. A manga cujo suco escorre pelo queixo e a maçã pecadora. O exótico girassol e a rosa vermelha e amarela tatuada. Ele temperado. Ela chuvosa. O som grave do baixo e a melodia do piano. Ele, todo lava vulcânica, ela, a água que acalma. O branco que ela não usa e o verde que ele não gosta. A velocidade do falcão e a altivez do cavalo. Eles são música. A contagiante Where The Streets Have No Name e a romântica Star. Ele dançante, ela nostálgica. Rock and roll e o velho R&B. Ferrari Black se misturando com Flower. Amor e entrega. Ele se concentra no que é técnico. Ela sonha por meio de um romance mitológico. Os opostos lasanha e sushi. As distantes - ou talvez nem tanto - caverna e ilha. O doce que completa o azedinho. Loção pós-barba deitada na grama molhada. Loucura-passional. Viver e querer. A força do Martelo de Thor e o convencimento da escrita da caneta. Ele é a capa de chuva. Ela é a saia primaveril. Mãos que se tateiam. E sorriso cúmplice. O Coringa e a Formiga Atômica! A vida eterna do Highlander. O amor eterno de Abelardo e Heloísa. O contagiante twist e o concentrado tango. Ele seria redondo. Ela seria cilíndrica. O contraponto do inverno – com neve – ao verão – com chuva. E se “do alto da montanha a paisagem é muito melhor”, ela reza pra que o coração diga pra coragem “vá” e ela vá mesmo, ousadamente, escalar essa montanha.
Se eles fossem, seriam assim. E como eles se amam, tenho certeza que são.
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
O que a atraía era a dificuldade. Ele mora longe, em outra cidade. Ótimo. É muito mais novo e vocês têm poucas coisas em comum. Lindo. Só o que segura o relacionamento é o sexo maravilhoso. Perfeito. Ele não quer compromisso e nunca vai mudar. Maravilha. Níveis sociais e objetivos completamente diferentes. Paixão à primeira vista. Os relacionamentos já começavam fadados ao insucesso. E ela sabia disso. E era isso que a atraía. Era isso que procurava. Relacionamentos difíceis, conturbados, problemáticos. Mas ela se deliciava. E no final, quando terminavam - porque sempre terminavam - ela podia dizer: "Foi a distância que nos separou" ou "ele era muito imaturo, também, tão novo". E saía incólume dali, sem precisar sequer pensar que alguma coisa deu errado por culpa sua. Nunca seria sua culpa. E ela seguia feliz.
