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Quarta-feira, Junho 24, 2009


Timming


Pegou sua bandeja de lanche e subiu para o primeiro andar da lanchonete. Gostava de sossego enquanto comia. Os adolescentes barulhentos que infestavam o lugar diariamente aglomeravam-se em alguns cantos. Procurou uma mesa distante. Ao sentar, notou a moça no canto oposto. Baixinha, cabelos curtinhos, vermelhos. Diferente. Óculos de aros pretos que lhe davam um ar sério e intelectual, e ao mesmo tempo de menina. Não era bonita. Não convencionalmente. Mas tinha algo. Alguma coisa que não sabia explicar. Lanchava devagar, mastigando pausadamente e lia alguma coisa. Notou o sorriso que aflorava de vez em quando, fruto do pequeno livro ilustrado que tinha à sua frente. "Maitena". A cartunista argentina preferida das mulheres. Os sorrisos dados pela pequena ruiva à sua frente o encantaram. Vestidinho preto, sandálias. Pernas cruzadas revelando as coxas grossas. Uma tatuagem colorida no ombro que destoava do semblante sério, mas que combinava com os sorrisos esporádicos vindos da leitura. Comia batatas fritas de duas em duas. O sanduíche havia ficado pela metade. Não conseguia parar de olhar pra a moça. Comeu seu lanche de forma mecânica, sem tirar os olhos dela. Queria se aproximar. Muito. Hipnotizou-se com as mãos bem cuidadas, o jeito de tirar a mecha de cabelo dos olhos e puxar para trás da orelha. Terminou de comer. Iria falar com ela. O que iria dizer? Como se apresentar? E se ela fosse comprometida e lhe desse um fora? Não viu aliança alguma, mas isso não queria dizer nada. E se ela o ignorasse? Se fosse mais uma dessas meninas metidas a besta, com jeito superior, que o olhasse com desdém, o que faria? Pensou. Pensou muito. Pensou em perguntas, em respostas, em situações. Resolveu que iria arriscar. Sim. O que tinha a perder? Nada, nada mesmo. Só queria chegar mais perto. Levantou-se. Ao mesmo tempo, a moça ruiva também levantou, levando sua bandeja na direção da lixeira mais próxima. Aproximaram-se. Ele empurrou a tampa da lixeira para que ela pudesse esvaziar sua bandeja. Ela olhou-o nos olhos. "Obrigada". E sorriu. Virou-se e desceu as escadas. Ele ficou ali, parado, olhando. Não teve coragem de proferir nenhuma palavra, de chamá-la, de ir atrás dela. Nada. No dia seguinte ele voltou lá. E no outro também. Mas nunca mais ele viu a moça ruiva que sorria ao ler Maitena. E nunca mais ele parou para pensar demais.







Terça-feira, Junho 23, 2009


Vacancy


Acordou e, ainda de olhos fechados, espreguiçou-se, tateando o outro lado da cama. Vazio. Abriu os olhos. Não havia ninguém ao seu lado. Há muito não havia alguém dormindo ao seu lado, mas todos os dias, antes de abrir os olhos, tateava a cama, como se procurasse pelo outro. A cama king size era espaçosa, mas ela só conseguia ocupar um dos lados. Um dos travesseiros. O outro lado permanecia ali: vazio, intacto. E, como fazia todas as manhãs, ficou deitada, olhando para o travesseiro ao seu lado, imaginando se um dia teria coragem de deixar alguém ocupar aquele lugar. Se teria coragem de deixar alguém ocupar um lugar na sua vida novamente. No seu coração. Sorriu ao constatar que sim. "Mas só se ele aceitar dormir do lado esquerdo da cama", pensou. Há muito se acostumara a dormir ali.







Quinta-feira, Junho 18, 2009


E o que é o amor?


Clara parou diante da porta do apartamento de Rodrigo. Respirou fundo, procurando coragem. Juntos há alguns meses, chegaram finalmente naquele ponto. O momento em que o relacionamento engata, ganha seriedade, consistência, ou termina. De vez. Não havia sido a primeira vez que Rodrigo dissera que a amava. E, embora não cobrasse, ela sabia que ele esperava a reciprocidade, o "eu também". Ela só não conseguia. Como dizer a ele que seu coração ainda pertencia a outro homem? Como contar a ele que vivia um amor platônico e sem futuro, sem esperança, sem planos, sem encontros, sem contato, sem toque, sem beijos, sem cheiro, mas cheio de sentimento? Que apenas vivia esse amor praticamente impossível, que lhe cruzara a vida pouco antes de se conhecerem? Como dizer a ele que amava alguém com quem jamais iria construir uma vida, um relacionamento, mas que era sua alma gêmea, que com ele compartilhara coisas que jamais compartilhara com alguém. Como explicar a ele porque ficava tão calada e pensativa quando ouvia Pearl Jam? Ou porque chorava quando escutava Use Somebody. Ou porque a paixão por determinados doces, como se estes lhe trouxessem lembranças distantes? Como dizer a ele que não conseguia amá-lo? Mas precisava dizer. Ela jamais mentira antes. Rodrigo não merecia. Era um homem bonito, honesto, inteligente e sincero. Não o amava, mas adorava sua companhia. Conseguia ficar silencioso e sorridente ao seu lado, assistindo a filmes que ela sabia que ele detestava, ou conversando durante horas pela madrugada adentro, acompanhados de uma garrafa de vinho. Gostava da risada franca dele, do modo simples como ele via a vida, da serenidade diante dos problemas. Gostava de saber que ele a observava dormir, velando seu sono, tirando as mechas de seu cabelo do rosto pra poder olhá-la com carinho. Divertia-se tentando arrumar o nó de sua gravata, mesmo sem saber como fazer, só para vê-lo ir trabalhar desalinhado e, ainda assim, satisfeito. Rodrigo merecia a verdade. Merecia fazer sua escolha sabendo de tudo. Tocou a campainha e prendeu a respiração.

"- Oi...
- Oi..."

Olhou naqueles olhos verdes, onde ela percebia o brilho toda vez que ele a via. O sorriso que tanto gostava. Os ombros largos que tantas vezes acolheram, sem saber, o choro por causa do outro. Sentiu o cheiro familiar da loção pós-barba que impregnava seus travesseiros e era tão dele. Pensou em tudo que viveram juntos. Pensou no amor que sentia pelo outro e que jamais sentiria por ele. Tomou coragem...

"- Eu te amo."

... e mentiu.







Segunda-feira, Junho 08, 2009


Quem?


"- Sofia! Sofia, acorda!

- Hmm... Hã, que foi Augusto?

- Que nome você disse agora? Quem é Rafael?

- Hein? Que nome? Que Rafael?

- Você que disse agora, você que tem que me explicar, oras!

- Augusto, eu não sei, eu tava dormindo...

- Por isso mesmo. Dormindo e sonhando. Tava sonhando com esse tal Rafael, quem é ele?

- Não sei meu bem, não tenho a mínima idéia, nem lembro o que eu tava sonhando...

- Humpf! Sei...

- Ô amor, deixa disso... Você sabe que eu falo demais quando durmo, falo besteira, falo coisas completamente sem sentido. Como é que eu vou saber quem é Rafael? Eu nunca lembro de nada...

- Hmmm...

- Vai meu bem, não fica assim, vem aqui vem...

- Mas é foda, né, Sofia? Ouvir a tua mulher falando o nome de outro homem na cama.

- Eu sei amor, eu sei. Mas relaxa, você sabe que eu já falei até o nome da tua mãe uma vez.

- Haha, verdade... Minha maluquinha...

- Hmmm, vem cá com a sua maluquinha vem...

- Minha maluquinha deliciosa... Encosta aqui em mim, quero ouvir outras coisas agora...

- Eu falo o que você quiser, meu gostoso...

- Rs... eu te amo, Sofia.

- Eu também te amo, Rafael.

- ...

- ..."







Quinta-feira, Junho 04, 2009


Don't go back...


Não sentia nada. Estava em paz. Parecia um sonho, desses meio nebulosos, onde não enxergamos muita coisa e sequer precisamos enxergar pra saber que está tudo bem. Só o sentimento. Calma, quietude, paz. Não havia mais choro. Não havia mais dor. Não lhe doía o peito com as lembranças. Que lembranças mesmo? Nada mais sentia. Até que começou a sentir. Frio. O frio. E o sonho começou a se desmanchar...

"- Oi meu bem, graças a Deus você acordou.

- Hein? Onde eu tô? O que aconteceu?

- Você ficou dois dias desacordada depois da cirurgia. Não voltou da anestesia. Os médicos e eu estávamos morrendo de preocupação.

- Cirurgia? Anestesia? Ai, minha cabeça.. Como assim não voltei?

- Você está dormindo há quase 48 horas, querida. E pra falar a verdade, parecia tão tranquila, tão pacífica que eu achei que você não estava mesmo querendo voltar...

- Ah... Achou é? Que isso..."